Estádio 01 de 20: peguei um ônibus de madrugada para ver Porto x Manchester City
Apenas três horas depois de anunciar que ia conhecer 20 estádios da Europa, eu já estava num ônibus de madrugada. O estádio 01 foi o Dragão, em Porto x Manchester City, e eu ainda tive que sair aos 35 do segundo tempo.
Uma promessa feita na madrugada
Eu postei no Instagram que queria conhecer 20 estádios da Europa até o fim da temporada.
Três horas depois, eu já estava dentro de um ônibus indo para o primeiro deles.
Isso não foi coincidência, foi de propósito. Eu sabia que se anunciasse e deixasse para começar na semana seguinte, ia virar aquela promessa que a gente faz em janeiro e esquece em fevereiro.
O post saiu quase às 22h (horário local). O ônibus saía às 2h55.
O susto antes da aventura começar
Cheguei na estação a pé, uns quinze minutos de caminhada, num clima que finalmente dava para respirar. O dia tinha chegado aos 40 graus e de madrugada estava fazendo 18.
Estação vazia, um casal sentado na praça, e a entrada principal simplesmente fechada.
Passou pela minha cabeça na hora: perder o ônibus por não conseguir entrar na estação, no mesmo dia em que anunciei a missão para todo mundo.
Tinha uma plaquinha discreta indicando acesso pela lateral. Entrei, achei um canto cheio de gente calada esperando, e ainda sobraram vinte minutos.
Cinco horas e meia de estrada até o Porto.
O Dragão doze horas antes do jogo
Desembarquei no terminal de Campanhã às 7h36. Faltavam mais de doze horas para o apito inicial.
E dava para ver o estádio já dali.
São uns mil metros de caminhada, mas não é um trajeto bonito. Boa parte é na beira da estrada e ainda tem uma ponte por cima da linha do trem. Fui no GPS o tempo todo, com aquele medo de estar indo para o lado errado, até aparecer a primeira placa escrita Estádio do Dragão.
E aí ele apareceu. Vazio.
Essa é a parte que eu não esperava gostar tanto.
Um estádio de Champions doze horas antes do jogo é um lugar quase doméstico. Tem gente fazendo caminhada em volta, tem senhor passeando, tem o pátio inteiro livre para você andar. Tem shopping, cafeteria, restaurante, tudo colado. E na fachada, um dragão cuspindo fogo.
Já dava para ver a estrutura sendo montada: as divisórias da revista, o gate 19 e a escadaria que eu ia subir doze horas depois com a camisa do City.
Se você for a um jogo grande, chega cedo uma vez na vida só para ver o estádio dormindo. É de graça e é metade da experiência.
Museu fechado, loja aberta
Voltei depois do café com uma missão: entrar no museu.
Não deu certo, e vale explicar por quê, porque isso pode te economizar dinheiro.
A entrada custa 17 euros, tem em torno de 27 espaços e a visita leva de uma hora e meia a duas horas. O problema é que em dia de jogo a parte do estádio fica fechada. Você paga o valor cheio e vê menos.
Não fazia sentido correr por ali de olho no relógio. Ficou o compromisso de voltar e fazer o tour com calma.
A loja, por outro lado, estava aberta. E ali eu me perdi.
A camisa número 1 do Gimenes, os três uniformes lado a lado, cachecol do confronto por 20 euros, o dragãozinho mascote por 9,90, bicicleta infantil do clube por 95 euros. Tem moletom, roupa de criança, pantufa, boneco de montar e decoração para casa.
O cachecol eu comprei e está guardado para um de vocês do Clube O Tal Thiago.
E aqui vai a observação que eu levo para o resto da missão: o clube europeu não vende ingresso, vende dia inteiro.
Você chega cedo, come ali, compra ali, passeia ali, e o jogo é o final de uma coisa que começou horas antes. Isso não é sorte, é organização.
O Porto que não tem nada a ver com futebol
Entre o café e o jogo sobrou meio dia, e eu não vim de tão longe para ficar sentado na porta do estádio.
Peguei um Uber até o Jardim do Morro, do outro lado do rio.
Duas coisas dessa parte ficaram comigo.
A primeira é que o motorista foi gentilíssimo, e eu vou registrar isso porque toda hora alguém me diz que português é seco.
A segunda é que o carro não sobe até lá. Tem um morro para vencer a pé, e eu cheguei em cima praticamente morrendo.
Valeu cada passo. A vista do Porto dali é nota dez, e ainda passa um trem rente ao chão que faz tudo tremer.
Depois desci e atravessei a ponte Dom Luís a pé, olhando de baixo o lugar onde eu estava minutos antes.
O dragão é mais antigo que o clube
Esse canal também é cultura, então fica um detalhe que talvez você não saiba.
No século XIX, durante a Guerra Civil Portuguesa, a cidade do Porto ficou cercada por quase um ano e resistiu.
Essa resistência ajudou a consolidar o título de Invicta, e o dragão já fazia parte da simbologia da cidade muito antes de virar o símbolo do FC Porto.
Ou seja, o estádio 01 dessa missão se chama Dragão por causa de uma cidade que não se rendeu.
Difícil achar um começo melhor.
A tal da francesinha
Eu não ia embora do Porto sem provar francesinha. E não provei antes de saber o que era, nem pesquisei, de propósito.
Chega aquele prato e é pão de forma, presunto, queijo, carne, batata, ovo por cima e um molho que é o verdadeiro motivo do prato existir.
Tinha uma azeitona que eu passei para frente, porque azeitona não é comigo. O resto, sem zoeira nenhuma, é muito bom.
A conta, com uma cerveja, deu 23 euros. Incluindo o pão com manteiga que chegou na mesa sem eu pedir e veio cobrado.
Fica o aviso de brasileiro para brasileiro: em Portugal, o pão que aparece sem você pedir quase sempre está na conta. Não é golpe, é o costume. Se não quiser, devolve.
Dois erros que me custaram tempo e dinheiro
Já perto da zona da torcida eu descobri que não ia poder entrar no estádio com mochila.
Tive que voltar até o terminal de Campanhã, onde tem armários, guardar tudo e retornar. Perdi tempo e transporte por uma informação que eu poderia ter checado de manhã.
O segundo quase aconteceu. Na hora de subir para o estádio, o Uber estava 22 euros.
Comprei um cartão e fui de metrô, junto com todo mundo, torcida do Porto e torcida inglesa na mesma composição se provocando e rindo.
Foi um dos melhores momentos do dia e custou uma fração daquilo.
O esquenta inglês na beira do rio
A torcida do City tomou a beira do rio. Cantando, bebendo, aquela coisa de milhares de pessoas fazendo a mesma coisa ao mesmo tempo.
Eu cheguei com a camisa na mão, não no corpo, para não arriscar apanhar dos portugueses antes do jogo.
Só vesti quando já estava no meio da turma certa.
01 de 20 destravado
Dentro do estádio teve o hino da Champions, que é a coisa com a qual eu nunca vou me acostumar. Nunca.
E teve um minuto de silêncio, com o estádio inteiro calado ao mesmo tempo. Ninguém filma isso esperando que seja um dos momentos mais marcantes da noite, e às vezes é.
Foi ali que eu falei em voz alta: 01 de 20.
Confesso que embargou. Aquele Thiago de criança não imaginava nem de longe estar naquele lugar.
A parte que ninguém mostra
Diário que só elogia não serve para nada, então vão as duas reclamações honestas.
A primeira é a rede do setor visitante. Tem uma tela que vai até o alto e atrapalha a visão do jogo inteiro, e só no setor visitante.
Eu entendo a lógica de impedir que alguém jogue algo no campo. Mas com a quantidade de polícia que tinha ali dentro, dava para resolver punindo quem faz, não estragando a visão de quem pagou.
A segunda é que eu não vi o fim do jogo.
Primeiro tempo 0 a 0, com o Haaland perdendo duas, uma cabeçada que o goleiro pegou e um rebote absurdo.
Aos 35 do segundo tempo eu tive que levantar e sair, porque meu ônibus era às 22h25 e eu ainda precisava buscar a mochila no terminal.
Saí correndo. Peguei a mochila. Peguei o ônibus.
E soube do resultado já na estrada: 2 a 0 para o City.
Perdi os últimos minutos do meu próprio estádio 01. É o preço de fazer isso sem patrocínio e com horário de volta marcado.
Muito mais do que um jogo
Dezenove horas acordado. Onze horas de estrada somando ida e volta. Doze horas de espera no meio. E noventa minutos de futebol dos quais eu vi uns oitenta.
Mesmo assim, foi ali que a missão deixou de ser um post no Instagram e virou uma coisa que está acontecendo de verdade.
Entre o estádio vazio de manhã, a loja, o morro, a francesinha, o esquenta e a correria do fim, ficou claro que a melhor parte de um dia de jogo quase nunca são os noventa minutos.
Para o estádio 02 eu levo quatro lições: museu e tour ficam para um dia sem jogo, regra de mochila se checa antes de sair de casa, metrô sempre, e se a volta tem horário fixo, o fim do jogo não é meu.
Se esse foi apenas o estádio 01, eu mal posso esperar pelos outros 19.
Resumo da experiência
- 🏟️ Estádio: Estádio do Dragão
- 📍 Cidade: Porto, Portugal
- ⚽ Jogo: FC Porto x Manchester City
- 🏆 Competição: Champions League
- 🎟️ Setor: Visitante, torcida do Manchester City
- 🚌 Como cheguei: Ônibus de madrugada, cinco horas e meia de estrada
- 💸 Gastos do dia: cachecol 20 €, francesinha com cerveja 23 €, metrô no lugar de um Uber de 22 €, museu 17 € que eu escolhi não pagar
- 📈 Resultado: Porto 0 x 2 Manchester City
- 😅 O perrengue: saí aos 35 do segundo tempo para não perder o ônibus
- ⭐ Momento inesquecível: o hino da Champions e o 01 de 20 destravado
- 🔢 Contador da missão: 1 de 20
🎥 Quer viver essa experiência comigo?
Gravei o dia inteiro: a madrugada na estrada, o Dragão vazio ao amanhecer, a loja do Porto, a francesinha, o esquenta dos ingleses e a corrida para pegar o ônibus depois do jogo.
▶️ Assista ao vlog completo no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=jOYOTFQfD6A
